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The Shape of Water: sem palavras

Se dúvidas ainda houvessem quanto à pertinência e legitimidade deste filme, rapidamente se dissiparam quando revelaram os  vencedores dos Óscares. Eis, então, uma excelente motivação para retirar A Forma de Água (originalmente The Shape of Water) da lista de agendados; e (pelo menos, tentar) perceber, finalmente, a origem de tanta polémica e controvérsia à sua volta!

Unable to perceive the shape of you, I find you all around me

Sob uma maravilhosa e envolvente trilha sonora (mais do que perfeitamente adequada a esta fábula poetizada), encontramos voz no silêncio; que, muito embora imposto pelo próprio corpo, não se consegue “manter à tona”.

Nos anos 60, com a Guerra Fria como pano de fundo, uma empregada de limpeza descobre e deixa-se descobrir por um místico ser que, como ela, comunica sem o pleno uso da palavra, fazendo-se valer da sua ambição e da coragem dos poucos amigos que tem para o libertar do cativeiro onde era retido e atormentado.

A mútua admiração evolui descontroladamente para um amor platónico que se manifesta de todas as formas e nenhuma das muitas atrocidades que vão sendo colocadas em prática ao longo da trama consegue abalar o que foram progressivamente construindo: os interesses económicos e as vinganças inconsequentes perdem a sua força (apesar dos estragos provocados!) para aqueles que realmente se importam. No fim das contas? Nem as diferenças anatómicas são redutoras o suficiente para condenar o happy ending que qualquer bom romance demanda.

Apesar das falhas que, mais ou menos obviamente, se podem evidenciar (das quais preciso de destacar a milagrosa pequena coincidência que tornou viável todo o plano preparado para retirar o “monstro” do laboratório), é um filme que merece ser visto e compreendido nas suas várias dimensões, exigindo da nossa parte uma abertura flexível o bastante para contornar o sobrenatural e alcançar o verdadeiramente essencial, aquilo que se quer de facto transmitir com as duas horas de filme.

Um bocado óbvio? Pois, talvez! Mas não é essa a previsibilidade que gostavamos de ter e conquistar quando nos predispomos a arriscar numa nova relação? Deixemos o leviano preconceito de lado; reconheçamos o louvável esforço de trabalhar temáticas atuais e urgentes à sombra de uma fantasia irreal mas quase viável.

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