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Iodoterapia: um bicho de sete cabeças?

Quatro meses depois de ter sido operada para remoção total da tiróide, descobri que teria de ser sujeita a iodoterapia; um tratamento que, tal como o nome indica, recorre a iodo radioativo para combater e destruir quaisquer células cancerígenas ainda presentes. A minha primeira reação? Surpresa e ansiedade; ora intensificadas ora atenuadas pela desesperada pesquisa que não pude deixar de fazer numa tentativa de esclarecer aquelas questões inevitáveis.

Embora a realidade daquela que foi a minha experiência tenha sido ligeiramente distinta, os relatos que li ajudaram-me, pelo menos, a ter alguma consciência do processo ao qual seria submetida e, por estranho que possa parecer, contribuíram bastante para a postura sensata que decidi adotar perante a situação. Assim sendo, claro que eu preciso de partilhar o meu testemunho; na esperança de fazer por vós o que outrora conseguiram fazer por mim. Começamos pelo início?

 

Visando uma melhor captação e absorção do iodo, para além da interrupção da medicação no mês precedente ao tratamento, tive de cumprir, durante os últimos sete dias, uma dieta rigorosa que o excluísse total e completamente: nada de sal (iodado), lacticínios, frutos do mar, pães comercializados, corantes vermelhos, chocolates, fast-food e outras comidas industrializadas, enchidos, produtos enlatados e molhos (como maionese ou ketchup). Basicamente, comi muita saladinha (sem qualquer tempero, claro!) e arroz feito apenas com água (muito delicioso…).

No dia do tratamento, depois de realizadas algumas análises e assinado por mim um contrato no qual me comprometi a não engravidar no espaço mínimo de um ano, fui encaminhada para um quarto isolado (equipado com cama, televisão, armário e casa de banho) onde fiquei sozinha após todas as recomendações (dais quais não posso deixar de destacar a de manter-me afastada o mais possível da porta sempre que alguém precisasse de entrar).

Ao fim de algum tempo, um médico adequadamente protegido deu-me, então, a ingerir a cápsula através de uma palhinha (para evitar qualquer possível contacto) e, após uma hora de jejum, tive de consumir, em grandes quantidades, rebuçados e água (de forma a eliminar-se, pela saliva e pela urina, a maior parte da radiação não absorvida pela tiróide). Já no dia seguinte, após se garantir que o valor de radiometria era o aconselhável; recebi a alta e pude regressar a casa.

 

Desengane-se, no entanto, quem acredita que acabam aqui as restrições! Mesmo fora da clínica, são vários os cuidados a ter nos (sete, no meu caso) dias seguintes. Até à realização da cintilografia (um exame de todo o corpo que deteta possíveis metástases), tive de permanecer numa única habitação, evitar o contacto contínuo com os meus familiares, não estar com grávidas e crianças, não manipular alimentos que não fossem para o meu próprio consumo, manter uma ingestão elevada de líquidos e descarregar o autoclismo duas vezes. Assim muito resumidamente, para evitar a exposição de outras pessoas à radiação; priorizei a higiene e mantive-me distante e durante o menor tempo possível de outras pessoas.

 

Foi fácil? Não! Aquela dieta drástica e o isolamento inflexível mexeram muito com o meu sistema nervoso; ao ponto de ter tido uma crise de ansiedade e precisar de ser assistida pelo INEM. Mas, honestamente? Podia ser bem pior! O tratamento foi rápido, de fácil administração e quase indolor. Ainda que possam existir, a curto e longo prazo, alguns efeitos colaterais; se o médico nos aconselha a faze-lo é porque, de facto, é a opção mais benéfica para nós tendo em conta todo o nosso histórico clínico e pessoal.

 

Não é preciso recear, o pior já passou!

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