Talk Time

Touradas – ainda?

No último ano foram várias as medidas tomadas no sentido de fazer o governo repensar a tauromaquia e algumas circunstâncias a ela associadas. Embora umas com mais impacto do que outras, todas despoletaram alguma troca um tanto ou quanto acesa de opiniões entre os mais aficionados, aqueles que não gostam mas aceitam e os que estão dispostos a qualquer coisa para conseguir o seu fim.

No meio disto tudo? Eu só queria poder fazer a diferença.

Sendo definidas como “a arte de enfrentar e lidar com toiros bravos”, as touradas implicam muito mais do que aquilo que as pessoas veem ou preferem ver. Antes de cada uma, o touro (previamente selecionado) é retirado do espaço onde até então foi criado (segundo dizem) livremente para ser, primeiro, privado de comida e água (de forma a, intencionalmente, o deixarem mais fraco) e, depois, transportado e enclausurado nos curros da praça. Ali, cortam-lhe os chifres para o embolar. Ocultamente, para além dos laxantes que lhes são dados, muitos veem os seus olhos ser preenchidos com vaselina (para atrapalhar a visão) e a sua garganta e o seu nariz obstruídos com algodão (para se tornar difícil respirar). Em alguns casos, podem até ter os seus cascos e os seus genitais queimados com substâncias químicas (para os fazer saltar e chutar) e os músculos do seu pescoço rasgados (para não moverem muito a cabeça). Quando chega a hora de entrar na arena, o seu stress e o seu medo culminam com a luz e com os gritos dos espetadores. Ele não é feroz. Ele não quer atacar. Ele está assustado, a sofrer, e tenta fugir. Não faríamos o mesmo? Não podendo escapar, é repetidamente atacado com bandarilhas e ferros (de oito a trinta centímetros) com arpões na ponta que traçam os seus tecidos. Para o cansar e magoar mais ainda, é surpreendido com passes de capote e no final, já sem forças e demasiado dolorido para reagir, dá-se a “pega”. Terminado o espetáculo com a aclamação ao “corajoso” toureiro que conseguiu enfrentar um touro completamente desprotegido e gravemente condicionado, as lâminas então cravadas são retiradas sem qualquer assistência veterinária e o animal é reencaminhado para o matadouro para ser abatido.

Todos os anos cerca de 2000 bovinos e cavalos são maltratados e mortos para que algumas pessoas possam “divertir-se” um par de horas “à custa do dinheiro dos contribuintes, dos milhões de euros do erário público [que são empregues] em subsídios e financiamentos que ajudam a manter a atividade”. E para quê? Por que é que somos um dos apenas oito países que ainda consideram legal e legítimo torturar, humilhar e sacrificar animais para entretenimento? Acreditam mesmo que evitar a sua extinção é argumento lógico para provocar e exibir o sofrimento dos touros? Acham de verdade que é racional defender a perpetuação de uma atrocidade cujos primeiros registos remontam ao século XII com a ridícula necessidade de preservar a tradição e a cultura de um povo?

O “nosso” valor não se prende à forma submissa com que aceitamos como valores absolutos aqueles que até então nos foram sendo apresentados e segundo a qual reproduzimos sem questionar o que crescemos a (ter de) observar. A “nossa” grandeza advém muito pelo contrário do modo arrojado e audacioso como pensamos sobre as coisas e refletimos sobre as suas implicações e consequências. Em tempos, fez parte da tradição e da cultura de muitas regiões expor lençóis manchados de sangue para provar a virgindade perdida, chicotear para punir crimes mais ou menos graves, queimar bruxas na fogueira, executar pessoas em praça pública e assistir às lutas de gladiadores até à morte. Atualmente, ainda se arranjam casamentos entre homens quase sem vida e crianças ainda inocentes. Em alguns países, a mutilação genital feminina continua a ser praticada. Deviam ter permanecido ou justifica-se que não se lute pelo seu fim por se tratarem de tradições e costumes???????? NÃO.

“A NOSSA LIBERDADE TERMINA AQUI, ONDE COMEÇA O SOFRIMENTO DOS OUTROS, SEJAM PESSOAS OU ANIMAIS”.

Também podes gostar!