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O rapaz do pijama às riscas

Quando Bruno precisa mudar de casa com a família porque o pai foi promovido no trabalho, de longe imaginava o que isso pudesse de facto significar e jamais previu o que viria a acontecer. Num novo lugar, rodeado por soldados hostis mas sem ninguém para brincar com ele, decidiu tentar chegar à “quinta” que descobrira pela janela do seu quarto.

Lá encontrou Shmuel, um rapaz careca de “pijama às riscas” com muita fome e um número marcado; número que Bruno julgava dever-se a um jogo. Bruno não compreendia como podia o seu amigo ser um judeu, a raça pela qual, segundo veio a saber pelo seu duro professor, se havia perdido a guerra e da qual precisavam todos de se livrar.

Bruno não percebia nada. Não o modo como Pavel se vestia e andava, tinha de trabalhar e era tratado. Não o cheiro que se fazia sentir sempre que aquelas chaminés lá ao longe faziam o céu ficar negro. Não as diferenças entre ele e aquele rapaz da mesma idade. Muito menos o medo que cada vez mais assombrava a sua mãe. Medo esse que se apoderou de si obrigando-o a mentir e a culpar Shmuel por algo que não fizera e pelo qual fora castigado.

Mas então os campos não eram algo bom e aceitável como naquele vídeo que vira ser passado na sua sala?

Pediu-lhe desculpa e prometeu-lhe que na manhã seguinte, antes de se ir embora, o ajudaria a encontrar o seu pai. Vestiu o pijama, um igual ao do seu amigo, tapou o cabelo com um barrete, escavaram um buraco para que conseguisse passar por debaixo da vedação armadilhada que até então os havia separado e foram. Quando Bruno se arrependeu e quis regressar, já era tarde; a cabana onde estavam foi evacuada e, no meio de tantos outros numa marcha como muitas que Shmuel havia visto sem saber exatamente o que implicavam, viu-se encurralado.

O pai de Bruno acabava de chegar ao campo de concentração, já inundado pela chuva torrencial, e sabia agora que não viera a tempo.

Os miúdos, sem qualquer noção do seu destino, tiveram de se despir e enfiar numa câmara. “Tomar duche?”. Ele acreditou que sim.

Espero que nisso tenha tido esperança até ao fim, mesmo depois de as luzes se apagarem.

Vivemos tão bem e desafogados, numa era completamente globalizada cujas fronteiras são cada vez mais ténues, que até custa a crer que, num passado, num passado tão recente, isto aconteceu. Crianças cresciam a aprender a odiar e os adultos nada de errado viam em humilhar e matar os de uma raça para eles “menos pura”.

O holocausto existiu e foi para cerca de dezassete milhões de pessoas, durante a Segunda Guerra Mundial, o fim da existência. Quase o dobro da população atual a residir em Portugal. Para além do genocídio sem igual de seis milhões de judeus (cerca de 78% da população judaica a viver na Europa ocupada), sofreram também os prisioneiros de guerra soviéticos, os poloneses, os ciganos, os homossexuais, as testemunhas de Jeová e quaisquer outros dissidentes políticos e religiosos, os deficientes físicos e mentais e ainda milhões de civis soviéticos. Toda a diferença era ameaçadora o suficiente para justificar a violência e o homicídio.

Desculpem.

Honremos os que se foram e lutemos pelos que cá estão ainda diariamente a lutar pela igualdade de direitos que lhes vêm ser constantemente recusada por isto ou por aquilo. Abaixo as hierarquias. Todos merecemos. Toda a diferença deve ser aceite e respeitada.

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