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Vigílias: a pacificidade capaz de revolucionar o mundo

Quando decidi que não voltaria a comer, usar ou financiar o que quer que fosse advindo da exploração e sofrimento animal, soube também, quase que instantaneamente, que tal já não era mais o suficiente. Percebi que não chegava e que podia fazer muito para além disso. Comprometi-me a tentar trazer comigo, para esta luta pela compaixão e liberdade para todos, mais pessoas, tantas quantas me seja possível. Decidi que estava disposta a tudo fazer para abrir os olhos aos que, como eu durante muito, demasiado tempo, preferem continuar a ignorar a verdade para a qual contribuem quando decidem servir-se, à mesa, de seres outrora vivos.

O ativismo fez para mim, então, todo o sentido e nessa mesma semana juntei-me ao Braga Animal Save para uma vigília à entrada de um matadouro. Um de vários.

A caminho de lá, sozinha e sem saber muito bem para o que ia, receei sem nunca sequer ponderar voltar atrás. Estava com medo e preocupada, mas nada se sobrepunha à vontade de tentar ajudar mais ativamente a dar voz aos milhões cujo silêncio foi imposto ainda antes de nascerem. Nada, para além deles, naquele momento, importava. E desde esse dia, assim tem sido, sempre que me é humanamente possível. Porquê? Porque sei que faz toda a diferença.

Chegados, uns mais cedo do que era suposto, outros já ligeiramente atrasados, ao local de encontro, depois da troca de abraços a que ninguém consegue (por mais que “queira”!) escapar, começamos por relembrar os princípios sob os quais se desenvolve e trabalha o grupo, acordando a nunca desrespeitar as regras que compõem o código de conduta e a priorizar em toda e em qualquer circunstância o bem-estar dos animais. Depois, então, apresentamo-nos; para os que já nos conhecem “de cor e salteado” e, sobretudo, para os que vêm pela primeira vez.

Entretanto, provavelmente, já passou algum camião; às vezes, mais do que um. E é por eles que ali estamos. Para pedirmos aos condutores que parem alguns minutos e podermos, enfim, estar com os animais que transportam. Vacas e porcos, galinhas, ovelhas ou cabras; animais que como nós veem, ouvem e sentem; animais que sabem, feliz ou infelizmente, uns mais do que outros, exatamente para o que vão.

Uns dão-nos essa oportunidade. Autorizam-nos a aproximarmo-nos e, enquanto, conversam com um de nós sobre temas que em nada precisam estar relacionados com o que estamos ali a fazer, dão-nos algum tempo para reconhecermos a presença daqueles seres e registar a sua passagem. Deixam-nos tocar-lhes, falar-lhes, olha-los e sentir a sua dor. Permitem que estejamos, por breves momentos, ali com eles e para eles, o melhor que podemos e conseguimos.

Outros abrandam para ouvir o que temos a dizer mas seguem caminho. Por desconforto ou ordens superiores, não param o suficiente para sequer chegarmos mais perto.

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Alguns, bem mais do que aqueles que gostaríamos, ou fingem não nos ver, ou atacam-nos verbalmente por se sentirem ameaçados pela nossa presença. Aceleram e impedem-nos de procurar por qualquer contacto. Agem desenfreadamente numa desesperada tentativa de nos intimidar e entram no matadouro.

Seja como for, melhor ou pior, jamais é em vão que ali estamos. Por um lado, porque mostramos aos trabalhadores e às pessoas que vão passando e se apercebendo da nossa assiduidade que não vamos desistir e, sobretudo, que a nossa intenção não é e jamais será prejudicar alguém mas sim e apenas podermo-nos despedir dos animais. Por outro lado, aquele que realmente priorizamos, porque não deixamos que a existência destes e de todos os outros seres com semelhante destino passe despercebida.

Porque os notamos como até então nunca ninguém o havia feito. Porque os consideramos muito para além do mero e aleatório número que lhes correspondem. Porque os olhamos ao invés de fingir que não existem. Porque conversamos com eles sem berrar, insultar ou ridicularizar. Porque os amamos, sem restrições, sem distinção, sem medo de amar. Porque contamos, então, a sua história para que mais pessoas a possam conhecer e para que outros depois deles possam viver uma diferente.

É fácil? Não! É inexplicavelmente difícil e doloroso. É… É demais. Aperta-nos o coração de uma maneira que julgávamos impraticável e faz-nos sentir coisas que nem nomear conseguimos. A impotência que nos invade é quase que paralisante e ficamos revoltados ao ponto de desejarmos ter a capacidade de virar este mundo de pernas para o ar e colocar tudo no seu devido sítio. Ai! Que vontade de berrar, de bater em alguém, de partir alguma coisa. Dói tanto… Dói mesmo muito…

Mas aí, nesses momentos, temos pessoas mais do que prontas para nos abraçar, para sofrer connosco ou nos tentar acalmar, para nos compreender. Estamos todos ali para o mesmo e mais tarde ou mais cedo, de uma forma ou de outra, cada um de nós acaba por precisar. É normal. É previsível. Não tem problema.

No fundo? O que mais importa são eles, os animais. E é por eles que fazemos sempre um minuto de silêncio antes de virmos embora.

Porque nós? Acabamos por regressar a casa. Mas eles? NÃO! Eles ficam…

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