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Por questões éticas, pelos animais

No meu caso, e felizmente no caso da grande maioria das pessoas, o que me fez repensar tudo, absolutamente tudo, não foi a minha saúde (ou falta dela!) nem tão pouco as alterações climáticas que a cada dia que passa mais evidentes ficam. Para muitos de nós, o que realmente nos alarmou foi a, até então desassociada, conexão entre o pedaço de carne que toda a vida nos foram colocando no prato e o animal cuja morte foi infligida para tal ser possível. O que, de facto, se tornou óbvio e indiscutível foi o quão hipócrita e especista seria continuarmos a amar uns animais e a sacrificar outros para…

… ALIMENTAÇÃO

As vacas leiteiras que são continuamente inseminadas à força pelos funcionários que colocam o seu braço no ânus delas, sem qualquer anestesia, para segurar o colo do útero e, então, injetarem o sémen recolhido através da masturbação do boi; cujas crias lhes são retiradas horas depois de nascerem para, se machos, serem descartados ou mortos para a indústria da carne e, se fêmeas, entrarem no mesmo ciclo que a mãe: pastoreadas 2 a 3 vezes por dia, até sucumbirem pela pressão ou serem mortas quando a produção começa a cair, por volta dos 4 anos de vida.

Os bois marcados com ferro em brasa, amputados, castrados, mantidos com quase nenhumas condições e deixados para morrer no caso de adoecerem, confinados e engordados com grãos, antibióticos, anabolizantes, vitaminas e suplementos para serem, mais tarde ou mais cedo, transportados em camiões lotados, pouco seguros e imundos, para o matadouro.

Os porcos que passam das gaiolas de gestação, onde ainda os castram e lhes cortam a cauda, as orelhas e os dentes, para outras celas não muito maiores, juntos com outros tantos, à mercê de agressões e doenças; para mais tardem serem transportados. Como os bois, os caprinos e os ovinos, no matadouro são atordoados (muitas vezes sem sucesso, dado o tamanho do animal e a falta de pontaria) em caixas de abate com projeteis cativos no cérebro ou choques elétricos, pendurados de cabeça para baixo e cortados na garganta, ainda conscientes, ficando a sangrar, para depois lhes tirarem as patas, a cabeça e a primeira camada de pele.

As aves cujos bicos são logo retirados antes de as despejarem num qualquer aviário mais do que sobrelotado com iluminação artificial e já mecanizada distribuição de antibióticos para atingirem 3kg em menos de um mês e poderem, assim, durante a noite, quando mais calmas, ser apanhadas à mão e engaioladas. No matadouro, são penduradas pelas patas numa fila em movimento, afogadas em água eletrificada, degoladas por uma lâmina automática e fervidas em água escaldante, tudo ainda conscientes na grande maioria das vezes.

Os peixes que, ou são capturados por redes no mar, enganchados e deixados a morrer no próprio sangue, ou, quando criados em alto mar em gaiolas submersas, em pequenos tanques internos ou em sistemas de açudes externos, são atordoados com golpe na cabeça, choque elétrico, imersão em água fria ou intoxicação por dióxido de carbono”, ficando à espera da morte por longos minutos.

… ROUPA

As vacas, pelo couro. Vacas que, sem os seus antigos donos sequer imaginarem, são amarradas e obrigadas a percorrer grandes distâncias (até onde seja legal o seu abate) sem comida e sem água, espancadas com varas e obrigadas a levantarem-se, quando já não conseguem mais, com pimenta ou tabaco nos olhos e a quebra dos seus rabos. Vacas que são, então, mortas, sem qualquer atordoamento prévio, umas à frente das outras, com vários cortes intencionalmente falhados para a pele ser depois retirada e curtida.

As ovelhas, pela lã. Ovelhas que tosquiadas por pessoas que, sem qualquer tipo de formação, são pagas pelo número de ovelhas e não por hora, priorizando a rapidez e batendo nos animais para os imobilizar. Ovelhas que, ao fim de alguns anos, quando já não produzem como era suposto, são mandadas para abate e vendidas como carne, quando não simplesmente descartadas.

Os patos e gansos, pelas penas. Patos e gansos depenados, sem qualquer anestesia, várias vezes sem cuidado algum; ficando com feridas e sendo mortos ao fim de algum tempo quando inúteis para o comércio.

As raposas, os coelhos, os cães e os gatos, pela pele. Animais que, fechados e isolados em gaiolas de arame sem espaço, são envenenados, sufocados, enforcados, degolados, espancados ou estrangulados até à morte, quando não esfolados ainda vivos para poupar tempo e dinheiro.

… ENTRETENIMENTO

Os animais selvagens que são mantidos presos em condições em nada semelhantes às do seu habitat natural, magoados e castigados para reproduzirem determinados movimentos e garantir o melhor show, em circos ou jardins zoológicos; ficando stressados, apresentando anomalias comportamentais e fazendo prever expectativas de vida mais curtas.

Os touros chamados para rodeios, que são atiçados (estrangulando-lhes as caudas, dando-lhes choques elétricos e/ou colocando-lhes esporas de metal no abdómen) para parecerem selvagens e então perseguidos e maltratados.

As aves, os javalis e os coelhos cuja caça ainda é permitida em algumas regiões, com cães, a tiro ou com armadilhas por envenenamento.

Os cavalos que obrigam a correr com apenas dois anos de idade (não estando sequer totalmente desenvolvidos), chicoteando-os para serem mais rápidos e provocando muitas e bem graves quedas nos obstáculos, para depois os matarem, ou ali mesmo na pista, ou num matadouro que os revenda como carne.

Os cães que ainda são treinados (com recurso a animais vivos como leitões, coelhos, galinhas, e gatos, então dilacerados) para as corridas lucrativas em que os inserem que resultam em lesões musculares, rompimentos e fraturas; “justificando” a sua morte, a tiro ou por espancamento.

… PESQUISA

Os ratos que frequentemente em quantidades assustadoras são sujeitos a experiências que envolvem procedimentos cirúrgicos sem anestesia ou exposição a doenças; então mortos, lenta e dolorosamente, por asfixia com dióxido de carbono.

Dizem que “se os matadouros tivessem paredes de vidro” e/ou “nós próprios tivéssemos de matar a carne que comemos”, “seriamos todos vegetarianos”. E eu sei que sim. Eu tenho a certeza que sim. Eu prefiro acreditar que sim.

Se um porco ou uma vaca te aparecesse, neste exato momento, à tua frente, assustado e com fome, o que farias? Atacá-lo-ias com as tuas próprias mãos? Servir-te-ias de um pedaço da sua carne depois ao jantar? NÃO. A tua primeira reação seria tentar acalma-lo, protege-lo, cuidar dele. Não pensarias em mais nada para além do seu bem-estar.

Se te levassem a casa uma galinha ferida, serias capaz de salivar pensando no churrasco que podias fazer com ela? Irias conseguir olhar-lhe nos olhos e despreza-la? NÃO. Naquele momento, o teu instinto dir-te-ia para cuidares dela e pô-la melhor. O teu prazer passaria para segundo ou terceiro plano.

Nós não nascemos a distinguir uns animais de outros. Nós conseguimos amar todos, de igual forma. Só não o fazemos porque preferimos permanecer na ignorância, porque escolhemos, mais ou menos conscientemente, não pensar no que está (ou estava) por detrás do hambúrguer ou do queijo que pedimos para almoçar. Afinal, foi sempre assim que foram sendo feitas as coisas e nós, como sempre, como parte de uma sociedade que queremos acreditar justa, apenas reproduzimos e fazemos igual. Até então…Chegou a hora de todos reconsiderarmos os nossos hábitos alimentares, as nossas tradições, os nossos estilos e modas e, acima de tudo, o nosso modo de pensar.

“Until he extends his circle of compassion to all living things, man will not himself fiiind peace”.

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