Life Time

Uma carta já aberta

Ora, não sei muito bem por onde começar. Bela falta de originalidade… Também nunca soubeste como ou quando eu cheguei, pois não? Já faz alguns anos desde que descobriste que estarei contigo durante toda a vida e, ainda hoje, te perguntas porquê.

As pessoas que te rodeiam e que contigo convivem não me conseguem ver ou ouvir, mas o teu corpo sim. Eu posso atacar-te em qualquer lugar e de qualquer maneira, sem aviso prévio, sem motivo aparente, sem solução à vista. Num momento, estarás cheia de força e sentirás que podes tudo. Noutro, num logo a seguir, ficarás sem ela e completamente exausta; os teus braços parecerão os de marionetas de tão dormentes e vulneráveis, o teu coração não saberá mais como bater direito, não serás capaz de ver para além de sombras e vais precisar de te sentar e abrandar.

O cansaço será, uns dias mais, outros nem tanto, a palavra de ordem, a condição habitual, a regra, não a exceção. A tua família e os teus amigos ficarão frustrados de tanto te ouvir, vezes e vezes sem conta, dizer o quanto te estás “a sentir mal”.  Eles preocupam-se, mas não percebem… Eles não sabem que a minha preguiça impede que se encha de combustível o depósito da tua máquina, eles não imaginam que a minha incompetência coloca em causa a devida reposição dos níveis de energia que o teu corpo e a tua mente precisam para te permitir realizar as tarefas mais insignificantes do dia-a-dia. Eu posso afetar-te desde a ponta do cabelo à ponta dos pés, de tão crucial que sou, mas eles não conseguem acreditar quando paras ao fim de meia dúzia de escadas para recuperar o fôlego ou te recusas a acompanha-los em determinado percurso.

Eu posso fazer-te dormir por muitas horas seguidas ou causar-te insónias e não te deixar “pregar olho”. Eu posso fazer com que sintas muito calor ou um tremendo frio, quando para os outros a temperatura está mais do que normal. Eu posso brincar com o teu humor, deixando-te feliz e eufórica sem justificação para tal ou irritada e triste quando tudo parecia estar bem. Eu posso provocar um ataque de ansiedade e pânico em meros minutos, não me perguntes porquê ou para quê.

As constantes e cada vez mais alarmantes falhas na memória, a par da perda de concentração? Eu.

A pele seca, a cara e as mãos inchadas, as unhas quebradiças e a rigidez muscular? Tudo eu.

O ganho de peso sem fundamento, não importa o quê ou quanto tu comas? Pois, também eu.

Não tenho limites ou fronteiras. Não escolho o dia ou a hora. Não aviso nem permito que tentes prever. Não deixo para uma ocasião melhor.

Por isso, por favor, não deixes de ir às consultas que te marcam (por mais que já tenhas perdido a paciência) e jamais te esqueças um dia que seja de tomar esses comprimidos que o médio recomendou. Embora eu não goste muito deles porque condicionam as minhas brincadeiras, eu sei que te ajudam e te fazem sentir melhor.

Com amor,

O teu hipotiroidismo.

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